20 de maio de 2026

Uma nova arquitetura financeira para a transição verde, por Horn, Feil & Feijó

A necessidade de orientar e coordenar a transição surge por causa das características da economia moderna.
Reprodução

ONU alerta para nova era de extremos climáticos e destaca lentidão nas ações para enfrentar mudanças globais.
Transição verde exige sistema financeiro ativo, liderado pelo Estado, para coordenar investimentos e reestruturar economia.
Bancos de desenvolvimento e centrais devem atuar juntos, ampliando mandatos para financiar e regular economia sustentável.

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Uma nova arquitetura financeira para a transição verde

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por Carlos Henrique Horn, Fernanda Feil e Carmem Feijó

Em julho de 2023, o secretário-geral da ONU, António Guterres, fez uma forte advertência ao mundo sobre a gravidade dos extremos climáticos: ele disse que “a era do aquecimento global acabou e a era da ebulição global começou”. Essa foi mais uma de tantas mensagens de alerta enviadas diariamente por cientistas, ativistas ambientais e líderes mundiais. Apesar de o risco das mudanças climáticas ser amplamente reconhecido, as ações para enfrentá-las têm sido lentas demais. Uma questão muito importante nesse cenário é o financiamento, que é visto como uma peça fundamental para impulsionar a transição para uma economia mais sustentável. No livro Development Banks and the Green Transition[1], discutimos exatamente essa questão, abordando a nova arquitetura financeira necessária para uma transição verde e sustentável.

O livro parte do entendimento de que a transição verde não acontecerá de maneira eficiente se depender apenas das forças do mercado, ou seja, do business as usual. Para isso, será preciso um sistema financeiro que vá além de simplesmente intermediar recursos de forma passiva. Ele deve atuar de forma mais ativa, ajudando a coordenar os investimentos, gerenciar os riscos e orientar o crescimento econômico de maneira sustentável. O livro reúne ideias da teoria econômica, dados de pesquisas e análises sobre o funcionamento das instituições, formando uma base que mostra que essa transição deve ser um processo liderado pelo Estado, de forma coordenada e em parceria com outros atores, sob a égide de uma nova convenção para o desenvolvimento sustentável.

A transição verde implica uma profunda reestruturação da economia. Não é apenas um processo de substituição tecnológica ou de ganhos incrementais de eficiência, mas sim uma realocação sistêmica de ativos, com redefinição das estruturas produtivas e reorientação dos fluxos financeiros. A transição assemelha-se a um processo de “destruição criadora”, no qual setores intensivos em carbono devem ser gradualmente desativados e novos setores de baixa emissão de gases de efeito estufa e de uso eficiente de recursos emergem, remodelando preços relativos, redes de produção, mercados de trabalho e a distribuição do poder econômico.

A necessidade de orientar e coordenar a transição surge por causa das características da economia moderna. Em geral, o financiamento privado tende a focar em atividades de curto prazo, que são líquidas e oferecem altos lucros. Desde o final do século XX, o processo de financeirização intensificou esse desequilíbrio no tempo, fazendo com o mercado, por si só, não seja capaz de gerar os fluxos de capital paciente na escala necessária para transformar a produção e impulsionar a inovação. Isso é especialmente importante diante dos desafios climáticos e da preservação da biosfera, que exigem uma visão de longo prazo.

A grandeza da transformação que precisamos exige uma mudança na estrutura financeira internacional. Hoje, sob o modelo neoliberal que predomina, são priorizados princípios que dificultam a mobilização rápida e em larga escala dos investimentos necessários para substituir o estoque de capital físico. Além disso, a visão limitada dos bancos centrais, que os vê apenas como responsáveis por manter a estabilidade de preços e regular o sistema financeiro para corrigir falhas de mercado, restringe bastante o apoio à transição coordenada para um futuro mais sustentável. Por isso, é fundamental promover uma mudança que alinhe as políticas monetária e regulatória com os objetivos de sustentabilidade, integrando também o financiamento ao desenvolvimento na governança macroeconômica global.

Os bancos de desenvolvimento desempenham um papel fundamental na nova arquitetura. São instituições financeiras públicas orientadas por missões, possuindo mandato, ferramentas e uma tolerância ao risco que são adequados para promover mudanças estruturais na economia. Diferentemente das empresas privadas, esses bancos têm como foco objetivos de política pública, trabalhando para alinhar expectativas, enfrentando a incerteza de forma significativa e atuando de modo anticíclico para manter os investimentos durante crises. Ao longo da história, eles ajudaram a moldar mercados, impulsionar avanços tecnológicos e transformar setores produtivos. Seu arranjo institucional em diferentes níveis permite uma ação coordenada capaz de promover mudanças em grande escala, levando em conta as particularidades de cada região.

Os bancos centrais devem perfilar ao lado dos bancos de desenvolvimento como pilares importantes na transição para uma economia mais verde. Sua relevância vai além de manter a estabilidade econômica, pois também desempenham um papel fundamental na gestão da liquidez, na regulamentação dos mercados financeiros e na formação de expectativas. No entanto, eles devem transcender seus mandatos tradicionais e adotar novas estratégias, como: (i) incluir claramente a busca por estabilidade climática, ambiental e social; (ii) usar instrumentos específicos de liquidez, como na ideia de uma Transição Quantitativa Verde, oferecendo financiamentos preferenciais para instituições que apoiem investimentos sustentáveis; (iii) reconhecer os diferentes riscos associados a ativos cinzentos e verdes na regulamentação, penalizando os setores que causam poluição e incentivando o crédito para projetos sustentáveis; (iv) promover a troca de ativos poluentes por investimentos verdes, adquirindo ativos fósseis depreciados com a condição de reinvestir em projetos sustentáveis; e (v) colaborar com autoridades fiscais e bancos de desenvolvimento para criar um sistema coeso que apoie essa transição.

Em síntese, a transição para uma economia mais sustentável exige uma mudança planejada na composição dos ativos econômicos, uma direção consciente dos recursos financeiros e um sistema financeiro internacional alinhado com metas de desenvolvimento e sustentabilidade. Nesse processo, bancos de desenvolvimento e bancos centrais desempenham um papel fundamental. Quando trabalham juntos, com funções ampliadas e coordenadas, eles podem liderar essa transformação. Sua atuação em diferentes níveis, suas capacidades orientadas por missões e sua influência no cenário macrofinanceiro fazem deles peças essenciais para garantir uma transição rápida, justa e o mais estável possível.

Carlos Henrique Horn. Professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento e Finanças Sustentáveis (Defis/UFRGS)

Fernanda Feil. Professora credenciada no Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), diretora do Centro Brasileiro de Finanças Sustentáveis (CeFiS) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (Finde/UFF)

Carmem Feijó. Professora titular da UFF, diretora do CeFiS, pesquisadora do CNPq e coordenadora do Finde/UFF

Blog: Democracia e Economia  – Desenvolvimento, Finanças e Política

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Instagram: @Finde_UFF


[1] FEIL, Fernanda; FEIJÓ, Carmen; HORN, Carlos Henrique. Development banks and the green transition: financing the sustainable development transition. Abingdon, Oxon: Routledge, 2026.

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Finde/GEEP - Democracia e Economia

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino. O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas.

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